30.1.05

leve o que lhe cor
credo, fogo, saia, torpor
só deixe de lado
[como que trapo]
cinza, sono, lapso
o que for


27.1.05

maio.2004

...

glamourosas baforadas
consequente embriaguez
mais dez minutos please
evoé baco...

curitiba... e um pouco quase muito de loucura
frio que aflige as espinhas
Tomie Ohtake para disfarçar
nada que corroa tanto quanto saudades
não de casa
pero de afago em sonhos distantes

quem sabe quando a realidade
retorno de lugar querido
não cidade
colo...

maio.2004
[cutucos]

trôpegos soluços
talvez as penas façam a cabeça afundar
remete-se ao quente da lanterna
e se há algo a ser iluminado
cabeça
pés ao quadrado... de calos
e quem sabe uma xícara bem quente
para ajudar essa pilha que acabou de acabar

só queria duas mãos
amarrar o cadarço
para não tropeçar
e se é frio agora
verão longe, mas está lá
quem sabe uma pedra de gelo
cubos para pensar
negativos para descer mais rápido

ela não acredita em espíritos mas se aquece toda noite com beijos de alguém-alma...

20.1.05

Um pouco de Pessoa para adoçar a eternidade

O mais é nada

Sonhe com as estrelas,
apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu.

Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar,
sabe-se lá aonde.

As lágrimas?
Não as seque,
elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.

O sorriso!
Esse, você deve segurar,
não o deixe ir embora,
agarre-o!

Persiga um sonho,
mas não o deixe viver sozinho.

Alimente a sua alma com amor,
cure as suas feridas com carinho.

Descubra-se todos os dias,
deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.

Abasteça seu coração de fé,
não a perca nunca.

Alargue seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-as.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Circunda-se de rosas,
ama,
bebe
e cala.
O mais é nada

Fernando Pessoa

14.1.05

atenção
a tensão
aversão
ah, seria...


13.1.05

tempo passa
nada se afasta
quando queremos e não podemos
passamos, deixamos, desistimos

paralisia de desesperança
ou medo de desventura
... saudade antecipada

quero que tudo mais
vá para o inferno


5.1.05

corda que me enforca

passatempo
pensamento
sentimento
desalento
só lamento...

3.1.05

átomo de saudade

um segundo mudo
sem nada a tecer
quase raro mas caro
para sentir um olhar
sofrer um suspiro

se toco seu sorriso
logo estremeço
fecho os olhos e emudeço
rubor que fuzila o peito
vai ao rosto e deixa um beijo

desconfio que esse átomo me visita toda noite em meus sonhos...

1.1.05

bons fluidos em 2005!!

a última do pós-Natal, 26.dezembro.2004


rara lua cheia
transportada da terra da saudade
a nuvem que a corta
é aquela mensageira
que veio me beijar
deixar-me benfazeja
do pós-Natal


a chama que outrora me afagou
é a mesma que foge de mim hoje
caminhos trocados
lenço molhado
mais um cubo no copo
vamos dançar a última música
sweet dreams...

31.12.04

Paulista com açúcar em 26.dezembro


noite charmosa
fumaça cautelosa
chuva ininterrupta inebriante
um pouco de idéia saltitante
café perfumado, por favor
agora quero sonhar...

30.12.04

de 20.novembro.2004


dores de saudade
de afago com mão de lençol
ligação repentina
átomos entrelaçados
quase um só

dura
pura
cura

a paciência vem quando menos precisamos dela
se dores de saudade
espera eterna
maldito Pessoa
dura tanto que o infinito não finda

odeio talvez
quem sabe também
inferno de Dante para quem crê
que 'sempre' é uma palavra bela

estamos aqui hoje
para estarmos amanhã
em qualquer outro lugar

sinapse da vida
agora só falta internalizar...


28.12.04

ainda lá no pós-natal...


Nessa cidade, chuva e máquinas e concreto são propositais para preencher a mente com ruídos que aliviam o tormento de se ficar pensando em tudo. De se ficar sentindo tudo...

27.12.04

26.dezembro, pós-natal chuvoso na Paulista, eu e uma companhia literária na mochila.


eu e eu mesma

Nunca estava só. Os pensamentos espetavam as pálpebras. De olhos abertos, pneus sobre asfalto molhado eram devaneios. Daqueles de tardes garoentas, cinzas, fumaça. Motivo para pensar sobre o telefone que nunca tocava. Mas não voz... queria olhos, pensamentos.
Cápsula de cidade de muitos momentos solitários. Não era para ser assim. Acostumou-se com barulhos e luzes e cores e dureza que bombeavam uma coisa que não sabia explicar. Argumentos eram transliterados por nuvens às oito da noite que escondem a púrpura cor da cidade que sangra. Todos sangramos... calados.
Complemento para a solidão, da urbe dura e crua, que não deixa olhos derramarem gritos. Quando em sol, claras nuvens e verde, então gritos e risos e farfalhar de grama seca. Era fora da cápsula opressora que as pessoas descobriam o que era felicidade. Não porque antes elas não sabiam, mas fora da fumaça elas enxergavam melhor.
Ninguém precisa de um motivo e, mesmo assim, já o tem. Há aqueles, como ela, jeans surrado e cigarros, atravessando sozinha a Paulista, que não agüentam ver a vida passar. Estão sempre atrás de um telefone que não toca, um sorriso indissolúvel no tempo. Alguns não conseguiam perceber quando era hora de parar. Ela sabia, mas não queria.
Todos atrás de um conforto que esguiche azul dos olhos, tenha veludo nas mãos e nos faça sangrar, sentir, calar. Enquanto o conforto não chega, a cidade, fria e dura, continua garoando aqui dentro. Talvez para umedecer corações perdidos que procuram... procuram...


26.12.04

a dúvida é a pior parte
sentimento desvairado
nos parte em cinco
para catar, se abaixa
mas não morre

é como girassol
tonto atrás de sua luz
giramundo
não quero que se chame raimundo
...e sexo é muito pouco!

17.12.04

roliça de algodão
passa a perna, prende um pouco
talvez a respiração

concubinar com deuses
[eles não existem]
mas sonhar não é vedado
a quem promete o sol
e ao largo
finge-se acordado

cama de treliça
roço de pêlos
peço mais puro
dorme
mais duro
não o coração...

14.12.04

além do post logo abaixo, música do Cake para traduzir sentimentos complexos...


Italian Leather Sofa

"she doesn't care
whether or not he's an island
she doesn't care,
just as long as his ship's coming in
[she doesn't care
whether or not he's a good man
she doesn't care,
just as long as she still has her friends]
if they laugh, they make money
he's got a gold watch
she's got a silk dress
and healthy breasts
that bounce on his italian leather sofa"

sucção adere lábios torpe desliza fere talo dorso falo quase morto sugere quanto vale corpo amolece assim durmo pouco sussurro longo danço falso caio quero peço colo calo...

11.12.04

Saudades aos montes
Dois tragos gigantes
Se é para brindar
Então vamos voar...

:)

7.12.04

hai-cai de final de noite em Brasil


Um hai-cai que desmonta
certezas que ninguém conta
também nunca sei ao certo
só sei que aqui dentro
algo no momento
pede estar desperto...

29.11.04

Com a correria aqui na Folha não está sobrando tempo para respirar [o trainee acaba essa semana].
Vou de Leminski hoje. Quer dizer, fui com ele sexta e acho que coube à situação. A vida não pára... Estou bem :)


alguém parado
é sempre suspeito
de trazer como eu trago
um susto preso no peito,
um prazo, um prazer, um estrago,
um de qualquer jeito,
sujeito a ser tragado
pelo primeiro que passa

parar dá azar

26.11.04

vontade de gostar

supetão do sol saindo por trás de nuvem antes que se chegue à sombra é o mesmo que olhar que lhe pega no meio do caminho enquanto você tenta se esconder para não ter que ficar vermelho por pressão de sangue que sobe desde o pé porque vontade de gostar...



hoje, ins[ex]piração leminskiana:

"a vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem"

24.11.04

Um dos meus poetas preferidos, Fernando Pessoa, em um de seus três heterônimos, Álvaro de Campos (prefiro Alberto Caeiro). Tudo a ver com o caderno do treinamento na Folha de S.Paulo.
Esses três meses voaram!! Nunca passei tanto tempo longe de casa...


Insônia

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...

E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.



É isso o que sinto há umas três semanas... Viva Pessoa!

19.11.04

Terence Blanchard: trompetista norte-americano, inspiração para o poemeto abaixo.

Esse cara é superfera, tem 42 anos e está no jazz há mais de 20. Levou o Grammy 2002 de Artista, Trompetista e Álbum do Ano por Let’s Get Lost (8º disco). Desde o final dos anos 80 vem fazendo trilhas sonoras para filmes, como para "25th hour" (2002), de Spike Lee, lançado no Brasil como "A Última Noite" (com Edward Norton). O 10º e mais novo disco dele, "Bounce", foi lançado pela Blue Note (www.bluenote.com) no final do ano passado. Vale o saque!

Agora é só apagar as luzes, botar mais uma pedra de gelo no copo e aumentar o volume.



vento que afaga os cabelos
farfalha as ventas
desce correndo
tremelica as pernas

rubor de curto-circuito
como timidez no 1º encontro
inspira, o tremor some
expira e ele regozija

sinestesia em estado puro
distensão do mundo
... é jazz


18.11.04

rabiscos curto(s) rabiscos curto(s) rabiscos...



pipa
pilha
apita
adia
ah, ia...




depena
desdenha
se senha,
condena
que pena...

minha mãe sempre me falou para eu me cuidar...



demanda
grande

infla
incha
esguicha
salpica
triplica

ego

17.11.04

a provocação que arranha meus pensamentos
me faz cheirar vermelho
umedecer o olhar
recrudescer os sentimentos

faísca que sai de furtiva tensão
queima as bordas e decola
assim quero que aconteça
amém



a ilusão é rococó e idiota!

16.11.04

"one more cup of coffee for i go"
dylan


me diga se preciso ir
me deixar de molho por dentro
até que apareça outra voz
que acaricie minha pele
e olhos que fustiguem meus lábios
para sentir sem querer
e dizer sem pensar
De Horácio (65-8 a.C.):

"Carpe diem, nec minimum credula postero"
(aproveite o dia, não confie no amanhã)


Ontem comecei a ler "O Lugar do Escritor", de Eder Chiodetto (ex-editor de fotografia da Folha de S.Paulo). Refresco de fotografia na minha mente, para me inspirar e me criticar. O trecho acima foi citado no livro pela escritora Patrícia Melo.

... adotei tanto o discurso do carpe diem que às vezes acho que o mundo, para combinar comigo, deveria ser assim também. Se sozinha, acho que talvez esteja precisando apenas de mim, curtir as coisas sozinhas, refletir, fazer falta, coisas assim... meio desanimada com a vida hoje de manhã, é verdade.

10.11.04

ai, cortei demais meu cabelo hoje... saco, fiquei meio mal-humorada


movimento

as nuvens conspiram
torre roça as costas
porque de frente para o infinito
é mais fácil devanear

se amanhã chuva
lágrimas na noite anterior
porque elas amam
e se calam
mas, se falam,
trovões

(out/2004)