27.11.07

As cigarras

Sofia tinha seis anos quando se pendurava em árvores. Era essa a época das cigarras. Todo dia havia uma, com seu grito ininterrupto, perto do anoitecer.
Ela sorria quando pensava num mundo cheio de cigarras. Porque algum dia alguém lhe contou que a cigarra começa a ganir quando cai o sereno e só pára quando morre, na noite do mesmo dia.
Para Sofia, e mais ainda para seu pai, quando a cigarra cantava era hora de descer da árvore e subir para casa. O dia começava infinito, mas acabava às seis da tarde.
Hoje, Sofia não as ouve. Por que não é mais criança. Mas não porque sua vida de adulto não seja cronometrada e cheia de regras. Só que, no lugar de seu pai, agora são impostas por ela mesma.


25.nov.2007

3.10.07

o cinza de São Paulo

me enegrece
me endurece
me encimenta
me acinzenta

mas com o crepúsculo
vira magenta



3.out.2007

14.8.07

A virtude pode-se tornar vício se ao seu exercício nos dedicamos com demasiada avidez

Michel de Montaigne
(1533-1592)

10.8.07

Ro, vá na casa do Fran pegar a calça do Alê e levar para a lavanderia do Ma.
Ironicamente, a economia de palavras do paulista é diretamente proporcional à exatidão de um baiano ao se referir a uma pessoa. Porque Alexandre na Bahia só pode ser Xande. Na complexa São Paulo, quando Alê é chamado, olham os Alexandres e Alessandros, como os Robertos, Rogérios e Rodrigos na vez do Ro. Beto, Chico, Xande e Celo encurtam o raciocínio. Depois os paulistas não entendem de onde os baianos tiram tanto tempo livre para... descansar.


Julho.2007

7.5.07

Seja razoável
Peça o impossível

Maio de 1968

26.3.07

perco o compasso
nessa cidade cheia de traço



19.mar.2007

16.3.07

ansiedade
saudade
vontade

ronronar interno
talvez fosse fome...



2006

9.1.07

Paralisada como a chuva
Que só faz barulho
Quando cai
Mas não machuca

Sigo absorta
Como imersa numa música
Que nunca acaba
Nem assusta...



6.jan.2007

25.12.06

seu cheiro me persegue
evapora sob meu nariz
aos pouquinhos assim
ao longo do dia

sigo ébria
como viciado que não quer se curar
sinapses me gritam saudade





25.dez.2006
as pessoas fazem a gente viajar
e se encontrar após épocas

a essência
ou o que a gente sempre pediu que fosse essência
bafeja rareadamente
como lufada de vento quente num dia fresco
pega-nos de surpresa

mas o que nos faz simbilar?
a surpresa como ato
ou o real sentido de bem estar?

faz me aproximar
de uma essência esquecida
não por eu precisar
por eu querer




23.dez.2006
evitando marcas
repelindo permanências

sigo ilesa
até mosquitos procurarem sangue na minha testa
[onde falta irrigação
e sobre racionalidade]

uma abelha beija
a bunda gorda da palma da minha mão

ferrão expelido
como qualquer coisa que agora tentar
demarcar território dentro de mim


11.nov.2006
momento de catarse
assumir para expurgar



21.out.2006

5.10.06

não estou no redemoinho
ele é que está em mim



3.out.2006
um pouco de exclamação
num momento de interrogação


3.out.2006
quero um pouco mais de loucura
para essa lucidez que me tortura


3.out.2006
o horizonte para desafogar
se não há,
entupido no passado
indeciso no presente
não se pensa no futuro


3.out.2006
Vento passa
Leva e traz

Não sei o que quero
Não sei se quero saber


3.out.2006

29.7.06

saudade, cidade

Que seja rápida para não doer
E infinita para não se esquecer



para Flá Marreiro

24.7.06

"Não dá para distinguir o pensamento das palavras que o expressam"

Platão citado/adaptado por personagem de "Viver a Vida" [1962], de Jean-Luc Godard

6.6.06

quando já for amanhã
e a sensação for de ontem
tome coragem
e vá dançar na chuva!


28.maio.2006

27.3.06

alma vagabunda
perambula sob a lua
de forma crua
alveja-se durante o dia

dedos em riste
olhos quase tristes
não existem
mas nos cutucam
e nos empurram
para fora da vi[d]a

8.12.05

cálido tato
como rugas de nuvem
que engolem
em suas dobraduras
ardor

suo calado

3.12.05

soa fino
suadouro
na toca do lobo
quando arma
desabo
qual pluma plana
seca
leve
dança


[my beibe]

25.11.05

leve
cerre que não solto
logo hoje, me perco

se corro
não ajo
disfarço

um lastro de espuma
e com uma fita
estica e afrouxa
o laço
"Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto"

Augusto dos Anjos

["A Dança da Psiquê]
"Sem você a emoção de hoje seria a pele morta da emoção do passado"

Hipólito

[no filme "Amélie Poulain", de Jean Pierre Jeunet]
"É impossível não acabar sendo do jeito que os outros acreditam que você é"
Júlio Cesar

[citado por Gabriel García Marquéz em "Memoria de Mis Putas Tristes"]

10.9.05

menino maluco
que anda no mundo
pergunto se mudo
e ele se fala...

20.8.05

brilha o sol
reflete a rua
daqui a pouco
vem a lua

14.7.05

avessa
atravesso
à beira
do excesso